A UNESP que se estende à Sociedade

 

Discurso proferido na abertura do 2º Congresso de Extensão Universitária da UNESP em Bauru - novembro de 2002

 

A extensão universitária é azul! Azul, cor primária do arco-íris, cor do mar, do céu, da terra vista do infinito. O azul é profundo, é sereno e descansa os olhos de quem o admira. A partir dela e compondo-se com outras duas cores primárias podemos observar todas as infinitas possibilidades de beleza que a natureza nos oferece. Olhar para o azul do céu é possível ser feito durante horas a fio!

 

O poeta Machado de Assis relata em Memórias de Braz Cubas:

 

Era negra como a noite. O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão nos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu... Também por que diabo não era azul? disse comigo...

 

E esta reflexão, uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas, me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo... E termina o poeta... A manhã era linda, Veio por ali fora, modesta e negra, esparrecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul para todas as asas de borboleta...

 

Assim meus amigos, o azul transborda serenidade, grandiosidade e contribui para disponibilizar milhares de alternativas de composição das cores. O azul, com a especial parceria do verde e do vermelho, oferece todas as cores do arco-íris. Vejam senhores, o tripé das cores azul, verde e vermelho permite formar no universo, de maneira sempre equilibrada, infinitas possibilidades visuais. Este tripé, em equilíbrio sempre estável, sustenta todas as cores possíveis de serem visualizadas.

 

Meus amigos ! A Universidade também é constituída de um tripé - ensino, pesquisa e extensão. Trata-se de um conjunto harmônico e indissociável, pois é impossível trabalhar numa sem a parceria da outra. A composição equilibrada deste tripé permite, pelo menos teoricamente, a formação não apenas dos melhores profissionais, mas também a formação de um indivíduo capaz de exercer a cidadania plena.

 

Analisando pormenorizadamente o tripé ensino, pesquisa e extensão observamos algumas distorções que necessitam urgente correção de rota, sob pena de desequilibrarmos a universidade e termos não mais a formação de um verdadeiro cidadão.

 

Assim, o nosso docente DEVE (grifado) trabalhar pelo menos 8 horas por semana ensinando os seus alunos da graduação. Esta, como é o principal objetivo fim da Universidade, tem recursos disponíveis do próprio Estado. Além disso, o docente PODE (grifado) dedicar-se até 8 horas por semana à extensão universitária. Isto se, após um trâmite burocrático intenso, os diversos conselhos permitirem. Esta, além de ter um orçamento limitado, ainda não dispõe de fontes alternativas de recursos.

 

Mas, o docente, se quiser PODE (grifado) dedicar-se pelo menos 32 horas ou mais por semana à pesquisa. Ainda é permitido, se assim o desejar, candidatar-se a uma bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq, sem a necessidade da anuência dos conselhos. Esta bolsa, além de proporcionar ao docente recursos alternativos, ainda permite rechear o seu currículo com um belo índice Pesquisador número X do CNPq. A pesquisa ainda conta com o estímulo da Universidade, de fontes de fomento Estaduais e Federais, além de agências gerenciadoras da pesquisa.

 

Vejam senhores, o tripé realmente está totalmente desiquilibrado! Dentro do contexto que ora se apresenta, ministrar aula na graduação tornou-se uma OBRIGAÇÃO (grifado). Fazer pesquisa tornou-se a única maneira de galgar postos superiores na carreira universitária. E ainda como prêmio o docente pode receber uma Bolsa de Estímulo. E a extensão? Bem, esta infelizmente está contemplada em apenas uma linha nos relatórios universitários como (grifo) - Prestou serviços de extensão universitária...

 

Precisamos rever esta situação urgentemente, haja vista que a sociedade atual está realmente preocupada com o destino das Universidades públicas principalmente em dois pontos a saber:

 

1-A sociedade quer o aumento no número de vagas que permitam novas oportunidades para os seus filhos;

 

2-A sociedade quer o retorno da Universidade. Este só será feito por meio da extensão universitária. Está evidente a necessidade de uma política extensionista rápida, agressiva e objetiva com especial participação da comunidade. O social faz parte hoje de qualquer discurso político!

 

Feito este diagnóstico, realmente preocupante para a continuidade da existência da universidade pública, alguns pontos necessitam ser corrigidos imediatamente, no âmbito da extensão:

 

1-Valorização da extensão universitária. Necessitamos convencer os nossos colegiados da necessidade da valorização urgente das atividades extensionistas. Isto porque elas tomam muito tempo do nosso docente, além do mesmo ter que manter um espírito elevado para chegar ao seu objetivo que na maioria das vezes trata-se de mudança comportamental. Falo isso, em especial para os programas que se relacionam intimamente com a comunidade. Um professor que ministra aulas para indivíduos adultos e carentes necessita de uma abordagem diferenciada. O profissional da saúde atendendo no seu ambulatório precisa manter o otimismo sempre presente para poder elevar o moral do paciente, frente as dificuldades que enfrenta na sua vida particular. A extensão meus amigos, é a grande Ouvidoria da Universidade frente à comunidade. A extensão lida com o ser humano, com as mazelas, com a dor, com as dificuldades do dia a dia, com a pobreza, com a injustiça, com a exclusão social, com a tragédia humana... Fazer extensão universitária desgasta sobremaneira a energia do docente além de dar muito trabalho e tomar muito tempo !!!

 

2-Criação de fontes de fomento. Necessitamos urgentemente da criação de fontes governamentais de fomento para a extensão universitária. Acredito que este seja o maior gargalo na valorização da extensão. Só para lembrar, este evento que hoje se inicia, só foi possível ser realizado graças a interveniência da nossa Universidade, das nossas Fundações e das Empresas patrocinadoras. Por incrível que pareça as empresas estão muito engajadas nesta luta e já perceberam a importância das ações sociais e da redistribuição de renda. Isto tanto é verdade que iremos em seguida diplomar 25 empresas cidadãs. Empresas estas que voluntariamente estão contribuindo com a UNESP na formação da cidadania dos nossos alunos carentes. Lamentavelmente nenhum recurso veio das Agências oficiais de fomento, em que pese terem sido solicitados com a devida antecedência.

 

Neste sentido,não vejo nenhum problema em se criar Agências oficiais de fomento dedicadas integralmente à Extensão Universitária, mesmo porque as existentes atualmente tem metas, objetivos e finalidades que não contemplam a extensão universitária. Neste sentido, Magnífico Vice-Reitor esta semana o senhor presenciou a entrega formal do Programa de Responsabilidade Social das Universidades Públicas do Estado de São Paulo ao senhor secretário de Ciência e Tecnologia Ruy Altenfelder. O senhor secretário ficou sensibilizado e satisfeito com a iniciativa da UNESP e prometeu discutir o assunto com o senhor Governador Geraldo Alkimin o mais rápido possível. Em última análise, o que queremos é uma Agência de Fomento dedicada exclusivamente à extensão universitária. Esta é e será a nossa maior bandeira de luta!

 

Magnífico Vice-Reitor. Praticamente dois anos já se passaram desta nova gestão. Gestão marcada pelo pioneirismo, pelo dinamismo, pela controvérsia, pelo arrojo e pela busca de soluções de grandes problemas. Discussões acaloradas tem surgido periodicamente - sempre com um único objetivo - a preservação do nosso ente mais querido - a UNESP. O diagnóstico da extensão universitária está feito! Apesar de todos estes problemas e desafios a Extensão universitária continua sendo azul. Ela é doce, mansa, agradável, dá prazer e sempre manifesta ao final do dia a sensação do dever cumprido! Ela amadurece o nosso espírito, ela acalenta os nossos sonhos, ela lapida a pedra bruta de cada ser humano participante, ela eleva o espírito de fraternidade, ela proporciona a reflexão do desafio da igualdade, ela ensina o uso da liberdade com responsabilidade, ela forma o Cidadão (grifado) para o mundo! Vale a pena continuar esta luta !

 

Antes de encerrar quero aqui usar mais alguns minutos para dar as Boas Vindas a todos os Congressistas e agradecer de público em primeiro lugar à minha família, Silvia, Ana Sílvia e Rui que sempre me amparam nos momentos difíceis desta minha nova jornada; ao nosso Vice-Reitor que nunca mediu esforços em apoiar as nossas iniciativas, em especial na concretização deste evento; aos colegas Pró-Reitores pela deferência de prestigiarem esta solenidade, à Câmara de Extensão Universitária que com muito espírito crítico e estusiasmo vem apoiando as atividades da PROEX; ao conselho de Vice-Diretores (Convidunesp) que sempre ao longe observam, sugerem, criticam no bom sentido e apoiam as nossas iniciativas; aos Congressistas - razão da existência deste evento -, aos servidores e assessores da PROEX que carregaram ombro a ombro esta jornada e finalmente às Comissões organizadora, científica e de divulgação que dividiram conosco a viabilização destes delírios. Meus amigos! Tudo começa nos delírios, estes tornam-se sonhos, viram possibilidade e por fim realidade. Vamos viver intensamente esta realidade!